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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Confissão

sou o som solto:
muito pouco
do que sinto
sigo

mas tenho meus trilhos
para o trem do corpo:
para os outros
sempre o mesmo apito

a mim mesmo
engana a garganta
a lenta locomotiva inventa:
agora existo

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Desleitura Barreana

A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem
a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos

(Manoel de Barros)



Apaixonar-se consiste em desarrumar os desejos
a ponto que eles expressem nossa mais profunda linguagem

domingo, 17 de agosto de 2008

o poeta partiu
ninguém sabe quando
volta, ou você
saberia?
não, não me diga
quero gozar a breve
liberdade como quem
faz travessura

eu, que sempre durmo
sob os viadutos
que tenho vivido
a fome, que nunca tive
com que brincar
tomarei a pena emprestada
apenas enquanto
o poeta não chega
não, não o chame
façamos disso nosso
pequeno segredo

enquanto estiver sol
nos divertiremos atirando
páginas ao vento
e vendo
o verso
quebrar-
se
(depois escreveremos outros)
e quando o sol
também houver partido
me abrigarei
do frio entre
as linhas
e talvez exista também
espaço
pra você

então sonharemos juntos
uma última vez
e dividiremos a mesma
pena
enquanto houver tempo
porque o poeta partiu

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Calor

calor



você busca
e se ofusca no sol

caminha tanto
e se encanta com cada farol

de cada olhar
e o mar, e o mar, e o mar

agita a areia
se deita satisfeita

esquece os calos
dos pés cansados

o sal no cabelo
e o segredo fatal

de quem te olha
e se cala no gole

de desejo guardado
gelado na coca-cola




Lucas Nicolato in Promessas Provisórias, inédito.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Música Parada

música parada


ficava assim
parado na chuva
que nunca parava
dentro de mim

eu me pergunto
se ela leva
tudo que pesa
ou poeira, enfim

não há resposta
só a pisada leve
de quem vai-se
embora sem notar

o ônibus, que tanto
demora, também chega
e parte mundo afora
e o mundo é uma esfera
que espera
a girar

a chuva passa
meus pés me levam pelas
poças que espelham o céu
mesmo que o meu
coração não possa
nunca mais trabalhar


Lucas Nicolato in Promessas Provisórias, inédito.

terça-feira, 17 de junho de 2008

A Arte do Poeta

A arte do poeta

para Antonio Cicero



escrever um poema é ser assaltado
e manter o sangue frio

ou fazê-lo ferver, borbulhar e correr
nas frias treliças metálicas
do concreto armado

escrever um poema é costurar
gotas
de suor ou lágrimas
tecer longa colcha de ondas
sobre sonhos profundos

ou subir na espiral dos sons
de uma escada cujos degraus
são as notas de uma canção oca
e ascender
através das nuvens evaporadas
rumo ao sol
ao céu
ao nada



Lucas Nicolato, in Promessas Provisórias, inédito.